
A Fenabrave, entidade que representa as concessionárias de veículos no Brasil, revisou para cima sua projeção de crescimento do mercado automotivo em 2026. A entidade agora espera uma alta de 8% no total de emplacamentos do país, praticamente triplicando a estimativa inicial, que era de apenas 3% de crescimento para o ano. A mudança reflete um cenário mais favorável de crédito, incentivo governamental e manutenção do baixo desemprego, fatores que juntos vêm sustentando a demanda por veículos novos mesmo em um ano marcado por incertezas do calendário eleitoral.
Com a revisão, a Fenabrave projeta um total de 2,9 milhões de veículos vendidos em 2026, somando todas as categorias, incluindo motocicletas. Olhando apenas para automóveis e comerciais leves, a expectativa é de crescimento de 8,8%, o que deve levar o segmento a fechar o ano com 2,7 milhões de unidades emplacadas. Já o mercado de motocicletas caminha para bater recorde histórico, com projeção acima de 2,4 milhões de unidades vendidas, superando qualquer resultado já registrado pelo setor no país.
Por que o mercado está crescendo mais que o esperado
O presidente da Fenabrave, Arcélio Júnior, atribui a revisão para cima a uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Um dos principais é o Marco Legal das Garantias, legislação que facilitou a recuperação de bens em caso de inadimplência e, com isso, reduziu o risco percebido pelos bancos na concessão de crédito para compra de veículos. Na prática, isso amplia a oferta de financiamento e melhora as condições de juros e prazos oferecidas ao consumidor final, um dos principais gargalos históricos do setor automotivo brasileiro.
Também pesam a favor dois programas de incentivo do governo federal. O Move Brasil, voltado à renovação da frota com veículos mais eficientes e menos poluentes, teve a primeira fase, de R$ 10 bilhões em recursos, esgotada em apenas 45 dias após o lançamento, sinal do apetite reprimido do consumidor por condições facilitadas de compra. Já o programa Carro Sustentável, direcionado a modelos com determinados critérios de eficiência energética e conteúdo nacional, impulsionou em 31,8% as vendas dos veículos elegíveis, segundo dados citados pela própria Fenabrave. Some-se a isso o cenário de desemprego historicamente baixo, que fortalece a capacidade de consumo das famílias e sustenta a demanda por bens de maior ticket, como automóveis.
Apesar do otimismo, a entidade pondera que o ritmo de crescimento deve perder um pouco de fôlego no segundo semestre, em função das restrições típicas de ano eleitoral, período em que decisões de investimento e crédito tendem a ficar mais cautelosas, tanto por parte de bancos quanto de consumidores.
Setor ainda distante do recorde de 2012
Mesmo com a alta projetada, Arcélio Júnior faz questão de colocar o resultado em perspectiva histórica. O recorde de vendas do mercado automotivo brasileiro foi registrado em 2012, quando 3,6 milhões de veículos foram comercializados no país. A projeção de 2,9 milhões de unidades para 2026 ainda está 900 mil veículos abaixo daquele patamar, mesmo 14 anos depois.
O dirigente foi direto ao comparar os números: “Se crescermos 10% ao ano, só vamos alcançar o patamar de 2012 em 2029 — ou seja, 17 anos de mercado perdido”. A frase resume a preocupação da entidade com a lentidão da recuperação do setor, especialmente em segmentos como caminhões e ônibus, que sofrem ainda mais. Os caminhões seguem 40% abaixo do recorde histórico de 2011, e os ônibus estão quase 30% abaixo do pico registrado em 2003.
Diante desse quadro, a Fenabrave reforça duas cobranças recorrentes ao poder público: avanços concretos na reforma tributária, que hoje adiciona complexidade e custo à cadeia automotiva, e a redução da taxa de juros, apontada como um dos principais entraves ao financiamento de veículos no Brasil. Segundo Arcélio Júnior, sem avanços nessas duas frentes, o país corre o risco de continuar andando mais devagar do que poderia. “Precisamos resolver a questão da tributação e dos juros, ou o Brasil não vai para frente”, afirmou o presidente da entidade.
O setor automotivo tem peso relevante na economia brasileira: responde por 5,92% do PIB nacional e gera mais de 380 mil empregos diretos, espalhados por 951 municípios em todo o país. Números que ajudam a explicar por que a recuperação — ainda que parcial — do mercado de veículos é acompanhada de perto tanto pelo governo quanto pelos consumidores que buscam trocar de carro em 2026.